FLEXIBILIDADE COGNITIVA EM CRIANÇAS AVALIADA PELO TESTE DE TRILHAS PARA PRÉ-ESCOLARES PDF Print E-mail

Revista Portuguesa de Dificuldades de Aprendizagem, Número 1, Vol. 1

Ana Paula Prust Pereira1, Alessandra Gotuzo Seabra[1], Natália Martins Dias1, Bruna Tonietti Trevisan1

1Universidade Presbiteriana Mackenzie

 

 

Resumo 

Na primeira infância, programas educacionais que efetivamente unam envolvimento emocional e motivacional com atividades destinadas a promover o desenvolvimento das funções executivas podem ser eficazes para o sucesso escolar. A prevenção e o tratamento dos distúrbios do desenvolvimento requerem a compreensão da função cognitiva normal e, adicionalmente, a existência de testes que possibilitem avaliar estas habilidades em idades precoces. O presente estudo possibilitou a análise do desenvolvimento cognitivo em crianças com desenvolvimento típico por meio da investigação de seu desempenho em uma tarefa de flexibilidade cognitiva. Participaram 85 crianças de 4 a 6 anos de idade de uma escola municipal de Educação Infantil de São Paulo, Brasil, avaliadas no Teste de Trilhas para pré-escolares. Os resultados revelaram tendência a uma progressão da flexibilidade cognitiva com o desenvolvimento, em termos de idade, dos 4 até os 6 anos, e de série escolar. Assim sendo, os dados permitiram contribuir à avaliação da flexibilidade cognitiva em crianças pequenas, corroborando estudos acerca do desenvolvimento desta habilidade mesmo em faixa etária bastante precoce.

 

Palavras-chave: desenvolvimento infantil, identificação precoce, funções executivas, flexibilidade cognitiva, avaliação.

 

 

Abstract

In early childhood, educational programs that effectively unite emotional and motivational activities designed to promote the development of executive functions may be effective for school success. Prevention and treatment of developmental disorders requires the understanding of normal cognitive function, and beyond, the existence of tests that allow us to evaluate these skills at early ages. The present study allowed the analysis of cognitive development in children with typical development through the investigation of their performance on a task of cognitive flexibility in individuals 4-6 years old. The participants were 85 children of a public school in kindergarten in Sao Paulo, Brazil, assessed in the Trail Making Test for preschoolers. The results showed a tendency to progression of cognitive flexibility with the developmental course, in terms of age, from 4 to 6 years old, and of grade level. Thus, the data found in this study allowed contributing to the assessment of the cognitive flexibility in children, corroborating studies about the development of this ability even in very early age.

 

Keywords: child development, early idenfitication, executive functions, cognitive flexibility, assessment. 

 

 

Introdução

Dentre as habilidades cognitivas importantes para a aprendizagem, as funções executivas têm papel fundamental. Essas habilidades estão relacionadas às capacidades de autocontrole, prestar atenção de forma seletiva e sustentada a estímulos que sejam relevantes em um dado momento, manipular mentalmente idéias, relacionando-as umas às outras, mudar a perspectiva ou o foco do processamento e, consequentemente, adaptar-se a mudanças e comportar-se de forma apropriada ao contexto (Gazzaniga, Ivry & Mangun, 2002). As funções executivas são requeridas sempre que o funcionamento automático não for suficiente e o indivíduo necessitar ponderar, planejar, organizar e adaptar-se às demandas do meio. Deste modo, são habilidades essenciais, por exemplo, para o aprendizado, para raciocinar ou resolver problemas, para concentrar-se em meio a um ambiente distrator ou para inibir comportamentos inadequados ao ambiente ou impulsivos (Menezes, Godoy, Teixeira, Carreiro & Seabra, no prelo).

Capovilla, Assef e Cozza (2007) descreveram a necessidade em desmembrar as funções executivas em aspectos mais básicos, tais como flexibilidade cognitiva, memória de trabalho, atenção seletiva, controle inibitório e planejamento. De fato, pesquisas como as de Miyake, Friedman, Emerson, Witzki e Howerter(2000), com adultos, e Lehto, Juujärvi, Kooistra e Pulkkinen (2003), com crianças de 8 a 13 anos de idade, têm sugerido que as funções executivas podem ser divididas em três componentes principais, a saber, controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade.

As funções executivas desenvolvem-se ao longo da infância e adolescência até a vida adulta inicial. Davidson, Amso, Anderson e Diamond(2006) estudaram a progressão do desempenho em tarefas de memória de trabalho, inibição e flexibilidade cognitiva em crianças e adolescentes americanos, com faixa etária entre 4 e 13 anos, e em adultos jovens. Todos foram testados em uma mesma bateria computadorizada, destinada a manipular a demanda sobre a memória e inibição de forma independente e em conjunto, em estado estacionário (blocos de tarefas simples, blocos com itens congruentes ou incongruentes) e durante a troca de tarefas (que envolvia alternância, itens congruentes e incongruentes em apresentação mista). Segundo os autores, mesmo crianças mais novas podem sustentar informações mentalmente, inibir uma resposta dominante e podem combiná-las entre si. Com relação à flexibilidade cognitiva, mesmo com as demandas de memória minimizadas, houve uma progressão dos desempenhos até o grupo de 13 anos de idade, porém, mesmo neste grupo etário, o desempenho ainda não atingiu o observado no grupo de jovens adultos.

Segundo Blair e Diamond (2008), o desenvolvimento das funções executivas está relacionado à progressão da autorregulação em crianças pequenas. Assim, a memória de trabalho, o controle inibitório e a flexibilidade cognitiva influenciam o desenvolvimento da autorregulação que, segundo estes autores, pode ser entendido como desenvolver uma reflexão para o equilíbrio entre os processos emergentes de ativação emocional e da regulação cognitiva. Na primeira infância, programas educacionais que efetivamente unam atividades destinadas a promover o desenvolvimento das funções executivas e envolvimento emocional e motivacional com podem ser eficazes na melhoria da autorregulação, consequentemente, na prontidão para o ensino básico e no sucesso escolar.

Portanto, intervenções destinadas a melhorar as funções executivas podem servir a um propósito importante, uma vez que tais habilidades estão relacionadas ao sucesso na vida cotidiana e escolar. Estudos anteriores mostram que alguns aspectos das funções executivas podem ser melhorados por meio de programas específicos. Ou seja, além da progressão usual com a maturação biológica, é possível fomentar o desenvolvimento das funções executivas com instruções específicas para isso. Assim, embora tais funções raramente sejam ensinadas formalmente, elas podem ser, principalmente às crianças em situação de risco (Diamond, Barnett, Thomas & Munro, 2007).

No Canadá, Diamond e colaboradores (2007) investigaram a efetividade de um programa para melhorar as habilidades em funções executivas de crianças do ensino infantil de salas de aula regulares, por meio da capacitação de professores do ensino regular, com custo mínimo. Os resultados revelaram que as funções executivas podem ser promovidas por meio de atividades incorporadas à rotina escolar. Os autores ainda sugeriram que estas habilidades podem ser desenvolvidas ao longo da vida, principalmente se estimuladas precocemente. Porém, os professores em geral recebem pouca instrução sobre como melhorar as funções executivas em crianças, apesar da sua importância, visto que déficits executivos relacionam-se a problemas tais como Transtorno de Défict de Atenção e Hiperatividade (TDAH), evasão de estudantes, uso de drogas e até mesmo taxas de criminalidade, além de síndrome de burnout em professores.

De fato, há vastas evidências sobre a relação entre funções executivas e indicadores de desatenção e hiperatividade, sobretudo em crianças. Capovilla, Cozza, Capovilla e Macedo (2005) investigaram, no contexto brasileiro, a relação entre escores de 154 crianças de 3ª e 4ª séries em testes de funções executivas e na Escala de Déficit de Atenção e Hiperatividade (ETDAH). Os autores identificaram correlações significativas entre as escalas da ETDAH e o desempenho em testes executivos, sendo que crianças com percentis acima de 75 na ETDAH, ou seja, com muitos sinais de desatenção e huperatividade, tiveram pior escore em flexibilidade cognitiva e em memória de trabalho auditiva.

De entre os componentes das funções executivas, a flexibilidade cognitiva será enfatizada no presente estudo. Ela refere-se à capacidade de mudar ou de alternar o curso das ações ou dos pensamentos de acordo com as exigências do ambiente (Malloy-Diniz, Sedo, Fuentes & Leite, 2008). Ações complexas requerem a alternância de um a outro subobjetivo de modo coordenado. Segundo Diamond e cols. (2007), a flexibilidade cognitiva refere-se à habilidade de facilmente ajustar-se às exigências quando as prioridades mudam, implica considerar algo a partir de uma perspectiva diferente ou nova. Assim, tal habilidade é essencial quando o plano inicial não é sucedido devido a imprevistos, ou quando é necessário alternar entre dois ou mais objetivos distintos (Miyake & cols., 2000).

Dificuldades de flexibilidade têm sido usualmente atribuídas a alterações pré-frontais (Gil, 2002). Estudos de neuroimagem têm sugerido que o sulco frontal inferior (região do córtex pré-frontal lateral, entre as áreas 45 e 46) de ambos os hemisférios é a região primariamente responsável por essa habilidade de flexibilidade (Konishi & cols., 1998), sendo a ativação dessa região proporcional ao número de dimensões possíveis durante a tarefa.

O Teste de Trilhas ou Trail Making Test é um importante instrumento de avaliação da flexibilidade cognitiva. Sua primeira versão, com as Partes A e B, foi criada por Partington em 1938, denominada de “caminhos de Partington”. O Teste de Trilhas fez parte da Army Individual Test Battery, de 1944, e atualmente é de domínio público (Lezak, Howieson & Loring, 2004). Uma adaptação foi feita por Reitan e adicionada à Bateria Halstead (Reitan & Wolfson, 1985). O teste possui duas partes: na parte A, o sujeito deve, em uma folha, unir números em sequência crescente e, em outra folha, letras em ordem alfabética. Na parte B, deve alternar entre números e letras, apresentados me uma mesma folha, em sequência crescente e alfabética (Strauss, Sherman & Spreen, 2006). Tanto a parte A quanto a parte B do teste estão relacionadas às habilidades cognitivas de percepção e atenção visual, velocidade e rastreamento visuomotor, atenção sustentada e velocidade de processamento. A parte B incorpora maior complexidade ao teste, avaliando também a flexibilidade cognitiva. Em ambas as partes do teste o sujeito deve desempenhar o mais rápido que conseguir. A principal medida que o teste fornece é a do tempo gasto para completar cada uma das partes (Malloy-Diniz & cols., 2008).

Apesar do vasto uso do Teste de Trilhas para avaliação da flexibilidade cognitiva, sua aplicação é limitada visto que exige que o participante tenha conhecimento das sequências de letras e números. Alternativas para a avaliação de indivíduos sem este conhecimento, incluindo crianças em idade pré-escolar, são relevantes para permitir a detecção precoce de possíveis alterações no desenvolvimento da flexibilidade cognitiva.

Neste âmbito, o presente estudo apresenta um instrumento de avaliação desta habilidade que independe da aprendizagem formal das sequências numérica e alfabética, bem como traz dados preliminares sobre o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva em crianças pré-escolares com desenvolvimento típico. Pretende-se, assim, contribuir para a identificação precoce de possíveis alterações na flexibilidade cognitiva em relação ao desenvolvimento normal. Dessa forma, esse estudo objetivou analisar o desenvolvilmento da flexibilidade cognitiva em crianças de 4 a 6 anos de idade com uso do Teste de Trilhas em sua versão para pré-escolares.

 

MÉTODO

Participantes

Participaram deste estudo 85 crianças, de ambos os sexos, sendo 43 da 1ª Fase da Educação Infantil, com idade média de 4,6 anos, e 42 da 2ª Fase, com idade média de 5,9 anos, alunas de uma escola municipal de São Paulo, Brasil. A Tabela 1 sumariza o número de participantes por série e idade. A amostra foi composta por crianças sem déficits intelectuais ou sensoriais conhecidos não-corrigidos.

Tabela 1. Número de participantes por série e idade.

 

4 anos

5 anos

6 anos

Total

1ª Fase

15

28

-----

43

2ª Fase

----

4

38

42

Total

15

32

38

85

 

Instrumentos

Teste de Trilhas para pré-escolares

Para o presente estudo foi usada a versão do Teste de Trilhas para pré-escolares (TT-P) desenvolvidos por Trevisan e Seabra (no prelo). Tal versão é baseada nas versões de Espy (1997), Espy, Kaufmanm, Glisky e McDiarmid (2001), Espy e Cwik (2004), bem como na descrição de Baron (2004). O teste é composto por duas partes, sendo que na primeira parte é apresentado apenas um tipo de estímulo e, na segunda parte, há dois tipos de estímulos que devem ser assinalados pelos sujeitos em ordem alternada. Assim, na condição A do teste, é dada à criança uma folha instrutiva com figuras de cinco cachorrinhos que devem ser ligados por ordem de tamanho, iniciando com o “bebê” até o “papai”. Na condição B, figuras de ossos de tamanhos respectivos aos dos cachorros são introduzidas, e a criança deve combinar os cachorrinhos com seus ossos apropriados, na ordem de tamanho, ligando-os alternadamente. O desempenho em cada parte foi medido em termos de sequência (número de itens ligados corretamente em sequência) e tempo de execução. A Figura 1 ilustra um modelo da parte B do Teste de Trilhas para pré-escolares. Evidências de validade do Teste de Trilhas para pré-escolares foram obtidas por Trevisan (2010) para crianças de 4 a 7 anos.

 

portuguese dog

 

Figura 1. Modelo da parte B do Teste de Trilhas para pré-escolares.

 

 

Procedimento

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). Após autorização da escola e dos responsáveis pelas crianças, a avaliação foi realizada em uma sala disponibilizada pela escola e durante o período escolar regular. O Teste de Trilhas para pré-escolares foi aplicado individualmente, em uma sessão com duração aproximada de 10 minutos.

 

RESULTADOS

Como os desempenhos dos sujeitos no Teste de Trilhas para pré-escolares não se ajustarem à distribuição normal, optou-se por conduzir análises não-paramétricas. Inicialmente foram conduzidas análises inferenciais de Kruskal-Wallis para verificar o efeito da idade sobre os desempenhos no instrumento, considerando quatro medidas: escore em sequências no TT-P parte A (TT-P_Aseq), tempo de execução no TT-P parte A (TT-P_Atempo), escore em sequências no TT-P parte B (TT-P_Bseq) e tempo de execução no TT-P parte B (TT-P_Btempo). Os resultados dessas análises são apresentados na Tabela 2.

 

Tabela 2. Estatísticas descritivas e inferenciais após teste de Kruskal-Wallis do efeito da idade sobre os desempenhos no Teste de Trilhas para pré-escolares.

 

4 anos

(N = 14)

5 anos

(N= 30)

6 anos

(N=36)

Kruskal-Wallis

(X2 e p)

 

Média (DP)

Posto Médio

Média (DP)

Posto Médio

Média (DP)

Posto Médio

 

TT-P_Aseq

2,36 (1,99)

31,93

3,27 (1,39)

42,20

3,14 (1,94)

42,42

X2 = 2,554

p = 0,279

TT-P_Atempo

41,57 (26,29)

45,50

40,07 (32,31)

42,38

30,83 (16,64)

36,99

X2 = 1,669

p = 0,434

TT-P_Bseq

2,79 (2,23)

38,64

2,34 (1,7)

36,24

2,76 (1,48)

41,50

X2 = 0,986

p = 0,611

TT-P_Btempo

108,86 (67,42)

50,18

96,53 (60,21)

42,50

64,88 (33,82)

32,46

X2 = 6,924

p = 0,031

 

 

 

 

 

 

 

 


 

De forma geral, houve uma tendência a melhor desempenho com a progressão da idade, sendo que a análise de Kruskal-Wallis revelou efeito significativo da idade apenas sobre o tempo de execução na parte B do TT-P. Para essa medida, como pode ser observado na Tabela 2, crianças de 6 anos foram mais rápidas que as crianças de 5 e essas, mais rápidas em relação às crianças de 4 anos.

Foram também conduzidas análises inferenciais de Mann-Whitney para verificar o efeito do nível escolar sobre os desempenhos no instrumento sobre as memas quatro medidas. Esses resultados são sumariados Tabela 3. 

 

Tabela 3. Estatísticas descritivas e inferenciais após teste de Mann-Whitney do efeito do nível escolar sobre os desempenhos no Teste de Trilhas para pré-escolares.

 

1ª Fase

(N = 40)

2ª Fase

(N= 40)

Mann-Whitney

(U e p)

 

Média (DP)

Posto Médio

Média (DP)

Posto Médio

TT-P_Aseq

2,9 (1,65)

37,90

3,20(1,90)

43,10

U= 696,0

p = 0,293

TT-P_Atempo

39,40 (31,13)

41,59

32,95(17,70)

39,41

U= 756,50

p = 0,675

TT-P_Bseq

2,54 (1,96)

38,15

2,68(1,41)

39,87

U= 708,0

p = 0,720

TT-P_Btempo

100,28 (63,55)

44,61

68,82(37,08)

34,12

U= 555,50

p = 0,041

 

 

 

 

 

 

 


 

De forma geral, a tabela permite verificar que houve uma tendência a um melhor desempenho das crianças da 2ª Fase em relação às da 1ª Fase, ou seja, as crianças da 2ª Fase obtiveram maior pontuação e demandaram menor tempo de execução do que seus colegas do nível escolar anterior. Novamente, a análise inferencial revelou efeito significativo, desta feita do nível escolar, apenas sobre o desempenho em termos de tempo de execução na parte B do TT-P, com as crianças da 2ª Fase sendo mais rápidos na solução do teste do que aquelas da 1ª Fase.

Foram também conduzidas análises de correlação de Spearman entre os desempenhos no TT-P. Os resultados encontram-se sumariados na Tabela 4. Foram observadas correlações significativas de magnitude moderada entre o escore em sequências no TT-P A e o tempo de execução na mesma parte do teste. Essa correlação foi negativa, ou seja, crianças que tiveram melhor desempenho no em sequências na parte A apresentaram uma tendência a ter menor tempo de execução nesta parte do instrumento. O resultado aponta uma tendência de que crianças que apresentam pior desempenho no teste tendem a ser também mais lentas em sua execução. A Tabela 4 mostra, ainda, uma correlação significativa e positiva, de magnitude moderada, entre tempo de execução na parte A e na parte B do TT-P. Ou seja, crianças que foram mais rápidas na parte A do teste também o foram na parte B.

Tabela 4. Matriz de correlações de Spearman entre os desempenhos no TT-P.

 

TT-P_Aseq

TT-P_Atempo

TT-P_Bseq

 

TT-P_Atempo

rho

-0,41

 

 

p

0,000

 

 

TT-P_Bseq

rho

0,17

-0,06

 

p

0,137

0,583

 

TT-P_Btempo

Rho

0,02

0,53

-0,11

p

0,883

0,000

0,358

 

 

DISCUSSÃO

Conforme os resultados previamente descritos, observou-se que, de forma geral, os desempenhos das crianças tenderam a aumentar paralelamente ao avanço da idade e da escolaridade. Efeito significativo da idade foi observado apenas sobre o tempo de execução em ambas as partes do teste, sendo que crianças de 6 anos foram mais rápidas que as crianças de 5 e essas, em relação às crianças de 4 anos, na solução da tarefa. Houve também efeito significativo do nível escolar sobre as mesmas variáveis, com as crianças da 2ª Fase sendo mais rápidas na solução do teste do que aquelas da 1ª Fase.

Tal resultado revela que, de fato, há melhora no desempenho na tarefa de flexibilidade cognitiva com o aumento da série e da idade. Esses resultados são parcialmente semelhantes aos de Trevisan (2010), que obteve aumento tanto nos escores quanto nos tempos de execução no Teste de Trilhas para pré-escolares, enquanto no presente estudo foi observado apenas aumento no tempo de execução. É possível que o efeito sobre escore observado por Trevisan (2010) tenha sido devido ao maior número de sujeitos, com maior amplitude de faixa etária e de escolaridade do que o do presente estudo. Porém, os dados aqui observados já são interessantes por revelarem uma tendência de desenvolvimento no Teste de Trilhas para pré-escolares em crianças tão pequenas e com faixa etária restrita.

De forma geral, existem evidências de uma progressão no curso desenvolvimental das funções executivas, corroborando os resultados da pesquisa de Dias (2009), que analisou o efeito da idade, entre 6 e 14 anos, sobre os desempenhos em diversos testes de funções executivas. Foi a partir da faixa de 9 e 10 anos que a autora identificou um desenvolvimento mais abrupto destas habilidades, inclusive da flexibilidade cognitiva que, na amostra da autora, não apresentou progressão de desempenho entre os grupos de 6 e 9 anos, apresentando, porém, um crescimento expressivo após esta faixa etária. Tal desenvolvimento pode estar relacionado à maturação e maior engajamento do córtex pré-frontal em tarefas executivas em determinadas faixas etárias (Houde, Rossi, Lubin & Joliot, 2010). Porém, pode também ser devido ao teste utilizado. É possível que em amostras de crianças mais jovens o Teste de Trilhas para pré-escolares se constitua uma ferramenta mais adequada do que o instrumento original com letras e números para avaliação da flexibilidade cognitiva.

Assim, os dados encontrados nessa pesquisa permitiram identificar o desenvolvimento da flexibilidade cognitiva com a progressão da idade, dos 4 até os 6 anos de idade, e da série escolar, da 1ª à 2ª Fase. A despeito de limitações, como o número pequeno de participantes e a restrição das faixas etárias incluídas no estudo, seu objetivo principal foi atingido: evidenciou-se influência de aspectos desenvolvimentais (idade e escolaridade) sobre o desempenho e apresentou-se o Teste de Trilhas para pré-escolares, que pode constituir uma ferramenta útil para avaliação da flexibilidade cognitiva em crianças. É apenas a partir da avaliação e do conhecimento do desenvolvimento normal que déficits podem ser identificados e intervenções podem ser traçadas com precisão e objetividade. Sugere-se que pesquisas ulteriores possam investigar as diferenças de desempenho ao longo de um maior número de faixas etárias e níveis de escolarização, bem como analisar diferenças entre gêneros e outras características, como influências provenientes do nível socioeconômico e tipo de escola, dentre as públicas e particulares.

 

REFERÊNCIAS

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